Nem sempre a violência deixa marcas visíveis. Em muitos casos, é a perícia que revela o que não aparece no primeiro relato. Em Mato Grosso do Sul, esse trabalho é conduzido pela Polícia Científica de Mato Grosso do Sul, responsável por transformar vestígios em prova técnico-científica — elemento central para a elucidação de crimes.
Parte da história está nos detalhes: marcas no corpo, vestígios no ambiente, sinais que precisam ser identificados, preservados e interpretados. Do sangue que alguém tentou apagar às mensagens deletadas em celulares, passando por imagens de câmeras e inconsistências entre a posição do corpo e os relatos, a perícia reconstrói dinâmicas que nem sempre aparecem nas versões iniciais.
Em casos mais complexos, como mortes inicialmente tratadas como suicídio ou “a esclarecer”, exames laboratoriais, perfis de DNA e impressões digitais podem estabelecer vínculos entre suspeitos e a cena do crime, redefinindo completamente a investigação.
A atuação da Polícia Científica alcança os 79 municípios do Estado. Na Capital, institutos especializados respondem por diferentes áreas da produção da prova. No interior, 14 unidades regionais garantem atendimento e ampliam o acesso aos exames periciais.
Nos casos de feminicídio, agressões e violência sexual, o trabalho começa ainda na cena da ocorrência. Vestígios biológicos e outros elementos são coletados para análise. Já nos exames de corpo de delito, lesões são documentadas — muitas vezes sendo a principal evidência do que não ficou visível inicialmente.
Nos casos de morte violenta, exames necroscópicos ajudam a esclarecer causas e circunstâncias do óbito, fornecendo elementos decisivos para a investigação.
Além da produção de provas, a atuação também envolve acolhimento. Em Campo Grande, a unidade do IMOL instalada na Casa da Mulher Brasileira completa três anos com crescimento expressivo no número de atendimentos: de 618 em 2023 para 1.524 em 2025. Em 2026, já são 385 registros.
O modelo integrado permite que a vítima realize exames no mesmo local onde recebe acolhimento, reduzindo deslocamentos e preservando vestígios.
Iniciativas semelhantes também avançam no interior. Em Dourados, o Projeto Acalento, em parceria com a UFGD, integra atendimento de saúde e procedimentos médico-legais. Já em Amambai, a implantação da sala lilás garante atendimento reservado e humanizado, modelo que também será implementado em Bataguassu.
A qualificação das equipes é outro eixo estratégico, com capacitação contínua de servidores para atuação técnica e humanizada.
“Nosso trabalho não se limita ao laudo. Ele envolve preparo técnico, sensibilidade e integração com a rede de proteção”, afirma o coordenador-geral de Perícias, Nelson Fermino Junior.
No fim, é esse conjunto de ações que garante não apenas a qualidade da prova, mas também um atendimento mais digno às vítimas — reduzindo a revitimização e fortalecendo a justiça.









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