O universo dos cuidados com a pele virou febre entre crianças e adolescentes nas redes sociais, especialmente no TikTok. Rotinas com dezenas de produtos, séruns antienvelhecimento, ácidos e hidratantes caros passaram a fazer parte da rotina de meninas cada vez mais jovens. Mas um novo estudo publicado na revista científica Pediatrics acendeu um alerta importante: muitos desses produtos podem causar irritações, alergias e até aumentar o risco de danos permanentes à pele.
A pesquisa analisou 100 vídeos de criadores de conteúdo entre 7 e 18 anos e identificou que as rotinas de skincare apresentavam, em média, 11 ingredientes ativos potencialmente irritantes. O dado mais preocupante é que apenas cerca de 25% das rotinas incluíam protetor solar, considerado essencial por dermatologistas.
O estudo foi conduzido por pesquisadores da Northwestern University e publicado na última segunda-feira (9). Segundo a dermatologista Molly Hales, autora principal da pesquisa, muitas adolescentes exibiam “pele perfeita”, sem acne aparente, mas ainda assim utilizavam produtos agressivos e antienvelhecimento.
“Para muitas delas, os danos provavelmente superam os benefícios”, afirmou a pesquisadora.
Produtos caros e inadequados para a idade
O caso da adolescente Ayva Peña, de 15 anos, exemplifica a preocupação crescente entre os pais. A mãe da jovem, Giselle Peña, ficou surpresa ao encontrar um creme facial antienvelhecimento avaliado em cerca de US$ 300 (aproximadamente R$ 1,6 mil) entre os produtos usados pela filha.
Segundo especialistas, produtos voltados para rugas, firmeza da pele e rejuvenescimento não são recomendados para adolescentes, já que nessa faixa etária a produção natural de colágeno está em alta.
Além disso, o estudo mostrou que as rotinas analisadas tinham, em média, seis etapas diárias e custos mensais próximos de US$ 168 (cerca de R$ 933), podendo ultrapassar US$ 500 mensais em alguns casos.
Ingredientes podem causar alergias e manchas
Entre os ingredientes mais comuns encontrados estavam os AHAs (alfa-hidroxiácidos), usados para esfoliação química e renovação da pele. Apesar de populares, eles podem deixar a pele mais sensível ao sol e aumentar o risco de manchas e até câncer de pele quando usados sem proteção adequada.
Outro ponto preocupante é o uso repetitivo de ingredientes ativos semelhantes em diferentes produtos da mesma rotina, o que pode intensificar irritações, vermelhidão e ressecamento.
A pesquisa também revelou que mais da metade dos produtos continha fragrâncias — um dos principais gatilhos de dermatite de contato alérgica.
A dermatologista Sonal Shah, especialista em dermatologia pediátrica, afirmou que muitas informações divulgadas nas redes sociais não possuem embasamento científico.
“São criadores de conteúdo que muitas vezes não entendem os riscos ou o funcionamento desses produtos”, explicou.
Redes sociais e pressão estética
Os pesquisadores também levantaram discussões sobre os impactos emocionais e sociais dessas tendências. Segundo os autores, muitas adolescentes acordam ainda de madrugada para cumprir rotinas extensas de skincare antes da escola.
Para os especialistas, o fenômeno vai além da saúde da pele e se conecta diretamente à pressão estética e à busca por padrões irreais de beleza nas redes sociais.
Outro ponto destacado é a exclusão de diferentes tons de pele. Muitos conteúdos são direcionados apenas para peles claras e reforçam padrões ligados à ideia de “pele perfeita” associada à brancura.
O que dermatologistas recomendam?
Especialistas orientam que adolescentes sem problemas dermatológicos importantes mantenham uma rotina simples:
- sabonete facial suave;
- hidratante sem fragrância;
- protetor solar diário.
Nos casos de acne, podem ser utilizados produtos específicos com ácido salicílico ou baixa concentração de peróxido de benzoíla, sempre com orientação médica.
Dermatologistas reforçam que skincare não precisa ser caro, complexo ou cheio de etapas para funcionar.
Pais também são incentivados a conversar abertamente com os filhos sobre influência digital, autoestima e consumo nas redes sociais.









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