Promovido pelo Instituto Sustentar, em parceria com a Verdelho Comunicação, o webinário “Fauna nas Estradas: Risco de Vida para Animais e Pessoas” reuniu, nos dias 13, 14 e 15 de maio, alguns dos maiores especialistas do Brasil para discutir os impactos das rodovias sobre a fauna silvestre e propor formas de mitigação para esse grave problema.

O evento contou com o apoio das seguintes instituições: ICAS – Instituto de Conservação de Animais Silvestres, UNEMAT – Universidade do Estado de Mato Grosso, REET Brasil – Rede de Especialistas em Ecologia de Transportes, Instituto SOS Pantanal, Observatório Rodovias Seguras para Todos e Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias (ABCR).
Para encerrar o painel “Conclusões e Propostas”, que integra a programação final do webinário, Gustavo Figueirôa, diretor de Comunicação da SOS Pantanal, apresentou o tema “Campanha: Estradas Seguras para Todos – Um case de Comunicação e Mobilização Social”.
Abaixo, o resumo de sua palestra:
Campanha “Estradas Seguras para Todos” mostra como a mobilização social pode transformar políticas públicas ambientais

Na palestra intitulada “Campanha Estradas Seguras para Todos: um case de comunicação e mobilização social”, Gustavo Figueiroa, biólogo e diretor de comunicação e engajamento do Instituto SOS Pantanal, compartilhou uma poderosa experiência de articulação da sociedade civil para pressionar pela implementação de medidas contra o atropelamento de fauna silvestre na BR-262, no Pantanal. Logo no início, ele ressaltou que, embora não seja um especialista técnico no tema de colisões entre fauna e veículos, seu trabalho ao lado de profissionais reconhecidos e suas constantes idas ao Pantanal o fizeram compreender a gravidade do problema e a urgência da ação.
O SOS Pantanal é uma instituição que atua há 15 anos com foco em três pilares: prevenção e combate a incêndios, conservação e restauração, e governança e segurança hídrica. A pauta de atropelamentos de fauna se insere no eixo de conservação e restauração, e o trabalho da diretoria de Gustavo está centrado em comunicação, produção de conteúdo, campanhas em diferentes mídias e incidência em políticas públicas — atividades sempre embasadas em conhecimento técnico e dados científicos.
Ciente de que já existem dados suficientes para embasar ações concretas, especialmente sobre a BR-262, Gustavo criticou a recorrente justificativa usada por autoridades públicas de que “ainda faltam estudos”. Segundo ele, essa alegação já não se sustenta: há levantamentos robustos, planos de mitigação prontos e recursos financeiros disponíveis. O problema, portanto, era de vontade e mobilização para execução.
Nesse contexto, surgiu a ideia de realizar uma ação simbólica. Tudo começou em fevereiro de 2023, quando, durante uma viagem à Terra Indígena Taunay Ipegue, ele e a diretora da Chalana Esperança, Luciana Leite, presenciaram uma cena marcante: a carcaça de um lobo-guará atropelado na beira da estrada. O impacto emocional foi ainda maior porque estavam acompanhados de April, uma visitante norte-americana cujo sonho era ver esse animal vivo — o que acabou acontecendo da pior forma possível. A tristeza gerada por essa cena despertou neles a ideia de utilizar os corpos de animais atropelados para fazer um protesto impactante e simbólico.
A partir disso, deu-se início a uma fase intensa de planejamento e articulação. Com apoio do Instituto Líbio, Fridays for Future e Chalana Esperança, começaram a recolher carcaças de animais mortos na BR-262 — armazenando-os em freezers na casa dos próprios envolvidos. A coleta foi feita de forma cuidadosa, com busca por embasamento legal (embora depois tenham descoberto que a norma usada havia sido substituída), e os corpos, após a ação, foram doados ao Laboratório da UFMS, para serem usados em pesquisas e exposições educativas.
O protesto aconteceu em 15 de junho de 2023, exatamente dois anos antes da data da palestra. Na ocasião, foram levadas nove carcaças para frente da sede do DNIT, em Campo Grande (MS), entre elas lobo-guará, tamanduás-bandeira, tamanduá-mirim e tatu-peba. A equipe levou também uma faixa com a frase “E agora, vocês nos veem?”, além de cruzes com números de animais mortos, baseados nos dados do ICAS (Instituto de Conservação de Animais Silvestres). A manifestação foi pacífica e atraiu mais de 25 pessoas, além da presença de veículos como Globo, Record, SBT, G1, Campo Grande News, entre outros.
O impacto midiático foi expressivo. Gustavo destacou que, mesmo antes do protesto, pauteou jornalistas, como uma colega da BBC, que publicou uma matéria profunda e bem construída sobre o tema, repercutindo o caso internacionalmente. Isso mostra como a comunicação estratégica bem-feita pode potencializar causas ambientais.
Durante o ato, os manifestantes foram recebidos por Euro, superintendente do DNIT em MS, que explicou que o plano de mitigação da BR-262 já existia, mas estava parado no Ibama há mais de um ano, devido a um represamento de processos herdado da gestão anterior. O grupo, então, mudou o foco da pressão para o Ibama. Com ajuda de contatos internos, conseguiram que o plano fosse priorizado e destravado.
O resultado foi concreto: um mês após o protesto, o Ibama aprovou o plano, que retornou ao DNIT para ajustes. Em novembro de 2024, o plano foi finalmente aprovado em caráter definitivo e, em 2025, teve abertura de licitação pública para execução das obras de mitigação na rodovia.
Gustavo concluiu sua fala com a reflexão de que não basta o conhecimento técnico: muitas vezes, tudo já está pronto e documentado, mas falta o empurrão da sociedade civil para que as coisas avancem. A ação com as carcaças teve grande repercussão e, mais importante, gerou desdobramentos reais. Segundo ele, parece que, finalmente, “fomos vistos”. Um exemplo claro de como mobilização e comunicação eficiente podem mover estruturas públicas mesmo diante de temas negligenciados há anos.
Gustavo Figueirôa- Diretor de Comunicação da SOS Pantanal
Para assistir à íntegra o terceiro e último dia do webinário Fauna nas Estradas, clique aqui.









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