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Não foi a Lupo que deixou o Brasil — foi o Brasil que deixou a Lupo.

por | dez 11, 2025 | NOTÍCIAS, SLIDER | 0 Comentários

Lupo transfere produção para o Paraguai após 104 anos no Brasil — e expõe um problema que o país insiste em ignorar

A Lupo, uma das marcas mais tradicionais do vestuário brasileiro, tomou uma decisão inédita em sua história centenária: transferiu parte significativa de sua produção para o Paraguai. Após atravessar guerras, crises econômicas, hiperinflação, trocas de moeda e instabilidade política, a empresa não resistiu ao mesmo inimigo que tantas outras enfrentam hoje: o custo Brasil.

Em junho, a gigante das meias e roupas íntimas inaugurou sua primeira unidade internacional em Ciudad del Este, na fronteira com Foz do Iguaçu. O investimento de R$ 30 milhões dará origem a uma fábrica com capacidade para produzir 20 milhões de pares de meias por ano.

“Não é que a Lupo foi para o Paraguai. O Brasil empurrou a gente para lá.”

A afirmação é de Liliana Aufiero, CEO e neta do fundador da Lupo. Segundo ela, produzir no Paraguai é quase 28% mais barato do que no Brasil — uma diferença que decide quem sobrevive e quem fecha as portas.

A estratégia não é expansão. É sobrevivência.

Hoje, mais da metade das meias vendidas no Brasil são importadas, muitas delas vindas da Ásia com preços tão baixos que a indústria nacional não consegue competir. O motivo? Um ambiente de negócios que desafia até os mais resilientes.

O peso do Custo Brasil

O país acumula obstáculos que se tornaram parte do dia a dia do empresário brasileiro:

  • Carga tributária sufocante
  • Energia cara
  • Encargos trabalhistas elevados
  • Burocracia e insegurança jurídica
  • Regras que mudam o tempo todo

Esse conjunto de fatores aumenta o custo de produção, diminui a competitividade e incentiva a fuga — não de impostos, mas de oportunidades.

Paraguai: impostos menores, energia mais barata e regras mais claras

Do outro lado da fronteira, porém, o cenário é outro. O Paraguai oferece um pacote de vantagens difícil de ignorar:

Tributação simplificada:

  • IRPF: 10%
  • Imposto corporativo: 10%
  • IVA: 10%
  • Encargos trabalhistas: cerca de 16%

Mas o verdadeiro diferencial está na Lei de Maquila, que permite às empresas estrangeiras:

  1. Enviar máquinas, insumos e matérias-primas sem imposto.
  2. Realizar todo o processo industrial localmente.
  3. Exportar os produtos finalizados — inclusive de volta ao Brasil.
  4. Pagar apenas 1% sobre o valor agregado ou sobre a nota de exportação.

A isso se soma a energia elétrica até 60% mais barata que a brasileira.

E no Brasil?

Por aqui, a lista de cobranças é longa:

  • Tributos sobre lucro: 24% + adicional de 10%
  • PIS/COFINS: 9,25%
  • ICMS entre 7% e 18%
  • ISS entre 2% e 5%
  • Encargos trabalhistas que podem dobrar o custo da folha

Resultado: enquanto o Paraguai atrai empresas, o Brasil as expulsa.

Um retrato da indústria brasileira

O movimento da Lupo é simbólico. Se até uma empresa tradicional, com mais de um século de operação no país, não consegue mais suportar o ambiente tributário e regulatório brasileiro, o que sobra para médias e pequenas indústrias?

A etiqueta dos produtos continuará sendo Lupo.
Mas o país onde eles serão fabricados mudou — não por escolha estratégica, mas por necessidade.

A pergunta que fica: quantas outras ainda resistirão antes de seguir o mesmo caminho?

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