Lupo transfere produção para o Paraguai após 104 anos no Brasil — e expõe um problema que o país insiste em ignorar
A Lupo, uma das marcas mais tradicionais do vestuário brasileiro, tomou uma decisão inédita em sua história centenária: transferiu parte significativa de sua produção para o Paraguai. Após atravessar guerras, crises econômicas, hiperinflação, trocas de moeda e instabilidade política, a empresa não resistiu ao mesmo inimigo que tantas outras enfrentam hoje: o custo Brasil.
Em junho, a gigante das meias e roupas íntimas inaugurou sua primeira unidade internacional em Ciudad del Este, na fronteira com Foz do Iguaçu. O investimento de R$ 30 milhões dará origem a uma fábrica com capacidade para produzir 20 milhões de pares de meias por ano.
“Não é que a Lupo foi para o Paraguai. O Brasil empurrou a gente para lá.”
A afirmação é de Liliana Aufiero, CEO e neta do fundador da Lupo. Segundo ela, produzir no Paraguai é quase 28% mais barato do que no Brasil — uma diferença que decide quem sobrevive e quem fecha as portas.
A estratégia não é expansão. É sobrevivência.
Hoje, mais da metade das meias vendidas no Brasil são importadas, muitas delas vindas da Ásia com preços tão baixos que a indústria nacional não consegue competir. O motivo? Um ambiente de negócios que desafia até os mais resilientes.
O peso do Custo Brasil
O país acumula obstáculos que se tornaram parte do dia a dia do empresário brasileiro:
- Carga tributária sufocante
- Energia cara
- Encargos trabalhistas elevados
- Burocracia e insegurança jurídica
- Regras que mudam o tempo todo
Esse conjunto de fatores aumenta o custo de produção, diminui a competitividade e incentiva a fuga — não de impostos, mas de oportunidades.
Paraguai: impostos menores, energia mais barata e regras mais claras
Do outro lado da fronteira, porém, o cenário é outro. O Paraguai oferece um pacote de vantagens difícil de ignorar:
Tributação simplificada:
- IRPF: 10%
- Imposto corporativo: 10%
- IVA: 10%
- Encargos trabalhistas: cerca de 16%
Mas o verdadeiro diferencial está na Lei de Maquila, que permite às empresas estrangeiras:
- Enviar máquinas, insumos e matérias-primas sem imposto.
- Realizar todo o processo industrial localmente.
- Exportar os produtos finalizados — inclusive de volta ao Brasil.
- Pagar apenas 1% sobre o valor agregado ou sobre a nota de exportação.
A isso se soma a energia elétrica até 60% mais barata que a brasileira.
E no Brasil?
Por aqui, a lista de cobranças é longa:
- Tributos sobre lucro: 24% + adicional de 10%
- PIS/COFINS: 9,25%
- ICMS entre 7% e 18%
- ISS entre 2% e 5%
- Encargos trabalhistas que podem dobrar o custo da folha
Resultado: enquanto o Paraguai atrai empresas, o Brasil as expulsa.
Um retrato da indústria brasileira
O movimento da Lupo é simbólico. Se até uma empresa tradicional, com mais de um século de operação no país, não consegue mais suportar o ambiente tributário e regulatório brasileiro, o que sobra para médias e pequenas indústrias?
A etiqueta dos produtos continuará sendo Lupo.
Mas o país onde eles serão fabricados mudou — não por escolha estratégica, mas por necessidade.
A pergunta que fica: quantas outras ainda resistirão antes de seguir o mesmo caminho?









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