O Brasil está envelhecendo de forma inédita e veloz. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o número de pessoas com 60 anos ou mais mais que dobrou entre 2000 e 2023, saltando de 15,2 milhões para 33 milhões. Com a mudança demográfica, cresce a pressão sobre trabalhadores e investidores: como se preparar financeiramente para uma fase da vida que, além de mais longa, também é mais cara?
Para a especialista em investimentos Adriana Ricci, head de Operações da SHS Investimentos, o maior problema está no hábito brasileiro de adiar decisões importantes. “A verdadeira aposentadoria dá poder para escolher como envelhecer. Ter independência na terceira idade começa com uma reserva financeira construída cedo. Mas viver o presente parece mais atraente, e o futuro vai sendo empurrado para depois”, explica.
Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), o Brasil já ocupa a sexta posição mundial em número absoluto de idosos. Apesar disso, Ricci afirma que a educação financeira ainda não acompanha essa realidade. Ela reforça que começar cedo é determinante. “Quanto antes, melhor. Os juros compostos trabalham a favor de quem inicia cedo. Essa preocupação deve existir desde o primeiro salário”, diz.
O sócio da Valor Investimentos, Virgilio Lage, complementa: “Quem demora paga caro. A velhice não é um evento, é um projeto de 30 a 40 anos. E vai ficar mais custoso conforme a população envelhece e a base de contribuintes diminui”. Projeções do IBGE indicam que, até 2040, o País terá mais idosos que crianças — um cenário que pressiona diretamente a Previdência Social.
Como começar a investir para a aposentadoria
Os especialistas são unânimes em um ponto: poupança não é solução. A rendimento costuma perder para a inflação, corroendo o poder de compra ao longo dos anos.
A educadora financeira da Rico, Thaisa Durso, sugere uma estratégia baseada em três pilares: renda fixa indexada, previdência privada e renda variável combinada a fundos multimercados.
Renda fixa indexada
Títulos públicos atrelados à inflação, como Tesouro IPCA+, preservam o poder de compra no longo prazo. O Tesouro Renda+, por sua vez, oferece pagamentos mensais por até 20 anos após o vencimento, permitindo planejar uma renda contínua corrigida pela inflação.
Previdência privada (PGBL e VGBL)
Segundo Durso, o PGBL possibilita deduzir até 12% da renda bruta anual, enquanto a tabela regressiva reduz a alíquota de imposto para 10% após dez anos. Já o VGBL não entra em inventário, o que facilita processos de sucessão familiar.
Renda variável e multimercados
Para garantir retorno acima da média, Durso recomenda ações, fundos imobiliários (FIIs) e multimercados alinhados ao perfil de risco. “É disciplina e reinvestimento que constroem patrimônio”, reforça.
Lage acrescenta que o foco deve incluir saúde e longevidade. “A inflação médica costuma ser o dobro da inflação geral. Isso significa que todos precisam de renda passiva na velhice. O objetivo final não é ter saldo, mas fluxo”, afirma. Ele também recomenda uma reserva de segurança que cubra de seis a doze meses de gastos, protegendo o planejamento de longo prazo.
Envelhecimento e políticas públicas insuficientes
Segundo o IBGE, o Brasil pode alcançar 75 milhões de idosos até 2070, representando 37,8% da população. Apesar do impacto evidente, as políticas públicas ainda são consideradas insuficientes.
“Políticas para idosos deveriam ser prioridade, mas não vemos isso na prática. Por isso reforço a importância de cada um construir o próprio castelo do futuro”, destaca Ricci.
De acordo com dados do FGV Social, o Brasil destina 13% do PIB à Previdência, percentual superior ao do Japão, que gasta 10% mesmo tendo uma população mais idosa. Para Lage, o modelo atual está esgotado. “A crença de que governo ou empresa vão sustentar a velhice é ultrapassada. A independência financeira é a única garantia real.”
A conta da longevidade pesa. Gastos com remédios, cuidadores, internações e planos de saúde dobram na terceira idade. Para Lage, a pergunta central não é quanto guardar para se aposentar, mas quanto acumular para envelhecer com dignidade. “O custo da autonomia aos 70, 80 ou 90 anos é o que realmente deve guiar o planejamento”, finaliza.









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