O Brasil consome pistache, paga caro e segue refém do mercado externo. Em 2023, as importações do produto chegaram a US$ 8,8 milhões, com Estados Unidos (77,7%), Argentina (18,2%) e Irã (4,1%) como principais fornecedores.
Agora, um grupo de produtores da Serra da Ibiapaba, com apoio institucional, tenta colocar o Ceará na dianteira de um movimento inédito: iniciar a pesquisa e os testes para viabilizar o primeiro cultivo nacional de pistache.
Só que a promessa é grande — e o caminho, maior ainda.
O que está sendo proposto
A articulação parte da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Ceará (Faec) junto à Embrapa Agroindústria Tropical, para avaliar a viabilidade do pistache na Ibiapaba, escolhida por condições de altitude e temperaturas mais amenas em relação a outras áreas do Nordeste.
A estratégia inclui a importação de material genético dos Estados Unidos para iniciar experimentos, com trâmites sanitários e quarentena.
O “piorenismo” do plano: por que o Ceará pode estar comprando uma década de expectativa
O pistache é tradicionalmente associado a ambientes de clima temperado. Na prática, o projeto depende de algo que ainda não existe em escala no país: a chamada “tropicalização” do cultivo — e isso não é sinônimo de “plantar e colher”. Uma fonte do setor resumiu o risco com franqueza: uma coisa é plantar, outra é produzir comercialmente.
Além disso, não basta produzir: o Brasil teria de criar cadeia de processamento e comercialização praticamente do zero para o pistache nacional competir com o importado.
Linha do tempo: o pistache do Ceará não é para amanhã
As estimativas publicadas apontam para um roteiro longo: início de testes após etapas de importação e estruturação do projeto e, se tudo der certo, colheitas comerciais apenas entre 2035 e 2040.
Em outras palavras: o Ceará pode até ser “pioneiro”, mas o consumidor brasileiro talvez só veja esse pioneirismo na prateleira quando o assunto já tiver mudado de moda.
Por que isso importa (mesmo com o freio puxado)
O apelo econômico é real: pistache é ingrediente valorizado na indústria de doces, sorvetes e confeitaria, e o consumo vem crescendo.
Se um polo produtivo nacional se confirmasse no futuro, o país poderia reduzir parte da dependência externa e desenvolver um novo nicho agrícola.
O que vem agora
- Plano técnico e captação de recursos para pesquisa e implantação de áreas piloto.
- Importação de material genético e início dos experimentos em condições controladas.
- Avaliar produtividade, adaptação, riscos e viabilidade econômica em ciclos sucessivos.
Em resumo: o Ceará quer ser o primeiro a plantar pistache no Brasil. Mas, por enquanto, a iniciativa parece mais uma aposta de longo prazo do que uma revolução agrícola imediata — e o estado pode acabar colecionando manchetes antes de colecionar safras.









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