Uma garagem particular transformou-se em um dos capítulos mais impressionantes da história recente do mercado automotivo de luxo. Nada menos que 46 Ferrari, pertencentes ao empresário norte-americano Phil Bachman, foram leiloadas no último sábado (17), movimentando US$ 124.706.500, o equivalente a R$ 659,5 milhões.
A coleção, revelada inicialmente pela imprensa especializada internacional no início de novembro, confirmou todas as expectativas. O adjetivo “curiosa” parece até modesto diante da grandiosidade do acervo, composto exclusivamente por modelos da marca italiana produzidos entre 1950 e 2017, muitos deles raríssimos, com baixíssima quilometragem e configurações únicas.
Phil Bachman faleceu em agosto do ano passado, aos 88 anos, deixando como legado uma das mais completas e homogêneas coleções de Ferrari já registradas. A preferência pela cor amarela, presente na maior parte dos veículos, tornou a garagem ainda mais singular — detalhe que reforça o caráter pessoal e quase artístico da coleção.
Entre os modelos leiloados estão nomes consagrados como 365 GTB, Testarossa, Dino, 360 Challenge Stradale, 575M Superamerica e verdadeiros ícones da engenharia automotiva. A estrela absoluta foi uma Ferrari Enzo 2003, arrematada por US$ 17,875 milhões (R$ 94,6 milhões), tornando-se o carro mais caro do leilão.
Produzida em apenas 400 unidades, a Enzo é equipada com motor 6.0 V12, capaz de entregar 660 cavalos de potência, além de transmissão automática. O exemplar de Bachman recebeu pintura amarela personalizada diretamente pela fábrica, reforçando seu caráter exclusivo.
A coleção também reuniu raridades extremas, como duas Ferrari F40 1992 das apenas 60 unidades produzidas para o mercado norte-americano e uma Ferrari F50 1995, uma das 55 vendidas nos Estados Unidos. Esta última foi o segundo carro mais valioso do leilão, alcançando R$ 64,6 milhões.
Outro destaque absoluto foi a Ferrari FXX 2006, integrante do seleto programa experimental da marca, criado para testar tecnologias de pista com clientes altamente selecionados. Das apenas 30 unidades produzidas, esta é a única com pintura amarela de fábrica. Equipada com motor 6.3 V12 de 811 cv e câmbio de dupla embreagem com trocas em apenas 0,1 segundo, foi vendida por R$ 33,5 milhões.
Os modelos mais recentes da garagem eram a Ferrari F12 tdf e a LaFerrari Aperta, ambas ano-modelo 2017. A F12 tdf foi arrematada por R$ 16,9 milhões, enquanto a LaFerrari Aperta atingiu R$ 58,2 milhões, equipada com motor 6.3 V12 que entrega até 800 cv.
No extremo oposto da linha do tempo está a Ferrari mais antiga da coleção: uma Ferrari 166 MM/53 Vignale Spyder, conversível de 1953, com motor 2.0 V12 de apenas 162 cv. Mesmo com 73 anos de história, o clássico foi vendido por R$ 11,1 milhões, durante o leilão realizado em Orlando, nos Estados Unidos.
Curiosamente, essa não foi a primeira Ferrari adquirida por Bachman. O ponto de partida da coleção foi uma Ferrari 308 GTS Quattrovalvole 1984, comprada quando ele tinha 46 anos e ainda atuava como vendedor de carros em Washington. Mesmo após quatro décadas, o modelo foi arrematado por US$ 1,6 milhão.
A Ferrari mais “acessível” do leilão foi uma Ferrari 400i 1985, vendida por US$ 104.500, cerca de R$ 553 mil.
Além do valor financeiro, chamou atenção a baixa quilometragem de diversos exemplares. A Ferrari 458 Speciale A 2015 registrava apenas 92 km rodados, enquanto a mais rodada era uma Ferrari 250 GT/L Berlinetta Lusso 1964, com 124.711 km.
E embora a Ferrari fosse o centro absoluto da coleção, Bachman também possuía dois Alfa Romeo 8C, nas versões Spider e Competizione, vendidos por R$ 2,2 milhões e R$ 1,95 milhão, respectivamente.
Mais do que carros, a garagem de Phil Bachman representava uma narrativa pessoal sobre paixão, exclusividade e obsessão por engenharia automotiva. Uma coleção que agora deixa de ser privada para entrar definitivamente para a história.









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