O cenário político de Mato Grosso do Sul para as eleições de 2026 aponta para uma direita consolidada territorialmente, mas cada vez mais fragmentada entre diferentes grupos e lideranças. A avaliação aparece em um estudo conduzido pelo procurador estadual Shandor Torok, que analisou o comportamento eleitoral sul-mato-grossense nos últimos 20 anos e identificou uma profunda reorganização no mapa político do Estado.
Segundo o levantamento, a polarização ideológica nacional entre lulismo e bolsonarismo, intensificada a partir de 2018, provocou mudanças estruturais também em Mato Grosso do Sul. O estudo mostra que antigos currais eleitorais foram dissolvidos, principalmente em Campo Grande, maior colégio eleitoral do Estado e considerado peça estratégica para a disputa de 2026.
A principal transformação observada foi o enfraquecimento histórico de partidos tradicionais como MDB e PT e a ascensão territorial do PSDB, que passou a dominar o cenário estadual a partir das eleições de 2018. Naquele ano, os tucanos saltaram para o comando político em 62 dos 79 municípios sul-mato-grossenses, consolidando cerca de 78% do território estadual.
Esse crescimento foi impulsionado pela força administrativa do então governador Reinaldo Azambuja e pela articulação política construída junto a prefeitos, vereadores e lideranças locais. Além disso, fatores nacionais como a Operação Lava Jato, o impeachment de Dilma Rousseff, o avanço do antipetismo e a crise do MDB ajudaram a acelerar a reorganização do eleitorado conservador.
Agora, porém, o próprio campo da direita vive uma disputa interna intensa.
O PSDB, que elegeu Eduardo Riedel ao governo em 2022, divide espaço com partidos aliados que também cresceram nos últimos anos. O PP, federado ao União Brasil, aparece como uma das principais forças do Congresso Nacional e deve investir em candidaturas competitivas no Estado, incluindo nomes como Dagoberto Nogueira, Luiz Ovando, Geraldo Resende e Rose Modesto.
Já o Republicanos ampliou sua presença política e hoje possui quatro deputados estaduais, além do vice-governador Barbosinha, que pode participar diretamente da composição da chapa majoritária de 2026. O partido aposta ainda na reeleição de Beto Pereira e no fortalecimento de nomes como Isa Marcondes, Roberto Hashioka, Dione Hashioka e Jaime Verruck.
Enquanto isso, o PSD mantém uma atuação mais concentrada em torno do senador Nelsinho Trad, sem perspectivas de lançar candidatura própria ao Executivo estadual, mas alinhado politicamente ao grupo governista.
Do outro lado, PT, PV e Cidadania articulam alianças com PDT e Podemos na tentativa de reorganizar o campo progressista e recuperar espaço perdido nas últimas eleições.
Fragmentação mudou mapa político do Estado
Os dados históricos analisados por Shandor mostram uma transformação profunda no comportamento eleitoral sul-mato-grossense desde 2002.
Naquele período, o então PMDB liderava em 35 municípios, enquanto o PT dominava 23 cidades. Em 2006, os petistas atingiram o auge territorial, comandando 36 municípios, enquanto o PMDB caiu para 28.
Em 2010, houve novo equilíbrio entre os dois grupos políticos, com vantagem pequena para o PMDB. Já em 2014, ocorreu o ápice da polarização estadual: PMDB e PT empataram exatamente com domínio em 37 municípios cada.
Mas o cenário mudou drasticamente em 2018.
O PSDB saltou de presença tímida nos ciclos anteriores para liderança absoluta em 62 municípios, enquanto MDB e PT despencaram territorialmente. Segundo o estudo, essa mudança não representou apenas uma alternância eleitoral, mas uma reestruturação completa do mapa político estadual.
Municípios historicamente ligados ao MDB e ao PT passaram a apoiar candidaturas vinculadas ao PSDB e ao campo conservador.
Em 2022, o PSDB manteve o domínio territorial, mas o PL surgiu como nova força ideológica ligada diretamente ao bolsonarismo, aparecendo em seis municípios e iniciando uma divisão interna no eleitorado de direita.
PL cresce como força ideológica bolsonarista
O estudo aponta que o PL passou a ocupar um espaço diferente dentro da direita sul-mato-grossense. Enquanto o PSDB permanece forte pela estrutura administrativa e articulação municipalista, o PL cresce como representação ideológica do bolsonarismo, impulsionado pelas redes sociais e pelo eleitorado conservador mais radicalizado.
Segundo Shandor Torok, a tendência para 2026 é de manutenção de uma direita forte no Estado, mas com disputas internas cada vez mais acirradas entre PSDB, PL, PP, Republicanos, PSD e União Brasil.
“O mais provável é a permanência de uma direita forte, mas cada vez mais disputada internamente”, aponta o pesquisador.
O estudo destaca ainda que três fatores sustentam atualmente a força da direita em Mato Grosso do Sul: o agronegócio, o fortalecimento das emendas parlamentares e o impacto das redes sociais no processo eleitoral.
Ao mesmo tempo, o pesquisador avalia que desgastes envolvendo setores do bolsonarismo nacional podem abrir espaço para lideranças regionais mais ligadas ao perfil administrativo, técnico e municipalista dentro do próprio campo conservador.









0 comentários