Mulher relata humilhações e piadas durante partos por causa do peso: “Mandaram minha foto pelada sem consentimento”
A pedagoga e criadora de conteúdo Rayane Soares, de 29 anos, transformou sua trajetória contra a obesidade mórbida em um espaço de conscientização nas redes sociais. Mas recentemente, o relato da influenciadora chamou atenção por um motivo ainda mais grave: as situações de gordofobia médica que afirma ter sofrido durante as duas gestações.
Os episódios, descritos por Rayane em entrevista à revista Marie Claire, envolvem constrangimentos, comentários ofensivos e até o compartilhamento de uma foto íntima sem autorização dentro do ambiente hospitalar. O caso reacendeu o debate sobre violência obstétrica e preconceito contra pessoas obesas no sistema de saúde — especialmente durante a gravidez, um período considerado de extrema vulnerabilidade física e emocional.
Rayane conta que enfrenta problemas com o peso desde a infância. Aos 12 anos, já pesava 125 quilos. Segundo ela, o ganho excessivo de peso esteve ligado a questões familiares, emocionais e episódios de compulsão alimentar.
“Comecei a engordar aos oito anos. Meu pai começou a usar drogas e eu comecei a comer compulsivamente”, relembrou.
Durante a pandemia, o quadro se agravou. Ela chegou aos 200 quilos e descreve um período de isolamento e descontrole alimentar.
“Estourei vários cartões de crédito no iFood. Os entregadores amarravam uma corda na embalagem para eu puxar pela janela porque eu não queria descer”, contou.
A mudança começou quando voltou a morar com a mãe e passou a receber apoio familiar e acompanhamento multidisciplinar, incluindo psicóloga, nutricionista e academia. O processo resultou na perda de 31 quilos — e em uma gravidez inesperada após dez anos tentando engravidar.
Gravidez de alto risco e humilhações no parto
Apesar da felicidade pela gestação, Rayane enfrentou sérias complicações. Ela desenvolveu pré-eclâmpsia, hipertensão e retenção extrema de líquidos.
Segundo o relato, o ambiente hospitalar se tornou traumático no momento do parto.
“Fui coagida a aceitar uma cesárea porque disseram que meu bebê iria para a UTI neonatal se eu não concordasse”, afirmou.
Mas o episódio mais chocante teria acontecido dentro do centro cirúrgico.
“A médica me colocou em uma maca que não suportava meu peso e mandou uma foto minha pelada para o anestesista sem eu entender o motivo”, revelou.
Rayane afirma que não processou os profissionais por não conseguir comprovar formalmente os abusos.
Após o nascimento do filho Isaac, ela ainda enfrentou dificuldades para amamentar e para carregar o bebê devido às limitações físicas provocadas pelo peso e pelas complicações da gravidez.
Segunda gravidez teve novas agressões
Menos de um ano depois, já tendo perdido 43 quilos e em processo para colocar DIU, Rayane descobriu a segunda gravidez. Novamente, o período foi marcado por complicações como hipertensão, diabetes gestacional e retenção severa de líquidos.
No dia do parto, ela relata ter chegado aos 193 quilos.
Segundo a influenciadora, as agressões verbais voltaram a acontecer no centro cirúrgico.
“A anestesista fazia piadas. Uma delas foi perguntar se conseguiria encontrar minha coluna para aplicar a anestesia”, contou.
Após o parto, Rayane ainda enfrentou inflamação na cicatriz da cesárea e risco de trombose.
Mesmo diante das dificuldades, ela segue compartilhando o processo de emagrecimento e maternidade nas redes sociais.
“Tem dias que eu tenho vontade de desistir, mas lembro que tenho duas vidas que dependem de mim”, disse.
Especialista alerta para consequências da gordofobia médica
A ginecologista e obstetra Larissa Cassiano, especialista em gestação de alto risco pela USP, explica que a obesidade realmente pode trazer complicações para a fertilidade e a gravidez, mas reforça que isso jamais justifica humilhações ou tratamento desrespeitoso.
Segundo a médica, pacientes obesas frequentemente enfrentam comentários ofensivos e culpabilização dentro dos serviços de saúde.
“A gestação é um momento de extrema vulnerabilidade. A gordofobia médica pode afastar a paciente dos cuidados e impactar diretamente a saúde da mãe e do bebê”, destacou.
Ela afirma que agressões como sugerir culpa pela condição do bebê ou fazer comentários sobre aparência e peso estão entre as formas mais recorrentes de violência relatadas por gestantes obesas.
O caso de Rayane provocou forte repercussão nas redes sociais e levantou novamente um alerta sobre a necessidade de humanização no atendimento médico, ética profissional e combate à violência obstétrica.
Em meio à dor física e emocional, o relato da influenciadora escancara uma realidade que muitas mulheres ainda vivem em silêncio dentro de hospitais e maternidades brasileiras.









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