O que parecia apenas vapor d’água suspenso no ar pode esconder um verdadeiro ecossistema microscópico. Pesquisadores da Arizona State University e da Susquehanna University descobriram que o nevoeiro abriga bactérias vivas que não apenas sobrevivem dentro das gotículas de água, mas também conseguem se reproduzir nesse ambiente.
A descoberta, publicada na revista científica mBio, pode transformar a forma como cientistas entendem a atmosfera terrestre e os processos naturais que acontecem acima de nossas cabeças.
Segundo o estudo, a concentração de bactérias encontrada no nevoeiro é comparável à registrada na água do mar. Além disso, os microrganismos podem desempenhar um papel importante no equilíbrio ambiental, ajudando até mesmo na degradação de compostos poluentes presentes no ar.
Nevoeiro pode funcionar como habitat microscópico
Para chegar à conclusão, os cientistas monitoraram 32 eventos de nevoeiro ao longo de dois anos. As amostras de ar foram coletadas antes, durante e depois da formação da neblina.
A equipe concentrou a pesquisa no chamado “nevoeiro por radiação”, fenômeno que se forma durante a noite em ambientes frios, calmos e sem vento.
“Há conhecimento muito limitado sobre quais tipos de bactérias estão presentes nos nevoeiros, que são como nuvens no nível do solo”, afirmou a pesquisadora Thi Thuong Thuong Cao em comunicado divulgado pelos autores.
Os testes mostraram que menos de 1% das gotículas continham bactérias. Mesmo assim, o número impressiona: aproximadamente 1 milhão de cópias do gene 16S rRNA por mililitro de água, marcador utilizado para medir abundância bacteriana.
“Quando você considera todas as gotículas juntas, a concentração de bactérias é igual à do oceano”, explicou o pesquisador Ferran Garcia-Pichel.
Bactérias estavam crescendo dentro da neblina
As análises genéticas identificaram predominância de bactérias do gênero Methylobacterium, conhecidas por sobreviverem em ambientes extremos.
Mas o detalhe que mais chamou atenção dos pesquisadores foi outro: as bactérias não estavam apenas “presas” no nevoeiro. Elas estavam crescendo ali dentro.
“Se elas estão crescendo, então as gotículas são um habitat. Essa é uma mudança de mentalidade”, afirmou Garcia-Pichel.
Em parte das amostras analisadas, os pesquisadores perceberam que, após o desaparecimento do nevoeiro, o ar apresentava cerca de 45% mais bactérias do que antes da formação da neblina. O resultado sugere que o ambiente úmido favorece diretamente a multiplicação dos microrganismos.
Descoberta pode mudar estudos sobre clima e poluição
Além da curiosidade científica, o estudo pode abrir caminho para novas pesquisas sobre qualidade do ar, mudanças climáticas e comportamento de poluentes atmosféricos.
Os cientistas acreditam que essas bactérias podem atuar naturalmente na quebra de compostos químicos presentes na atmosfera, funcionando como uma espécie de “filtro biológico” invisível.
A descoberta também reforça uma visão cada vez mais discutida pela ciência: a de que a atmosfera terrestre não é apenas um espaço vazio, mas um ambiente biologicamente ativo, cheio de interações microscópicas ainda pouco compreendidas.









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