A manhã de quarta-feira, 22 de outubro de 2025, começou com confusão e revolta em Campo Grande. Nenhum ônibus circulava nas primeiras horas do dia, deixando milhares de trabalhadores e estudantes sem transporte.
Nos terminais, a cena era de desespero: filas enormes, aglomeração e corridas de aplicativo a preços altíssimos.
Mas o que levou à paralisação do transporte coletivo na capital? E, afinal, de quem é a culpa?
O estopim: atraso de pagamentos
O gatilho imediato da paralisação foi o atraso de 48 horas no pagamento do adiantamento salarial dos motoristas e cobradores.
Segundo o Sindicato dos Trabalhadores do Transporte Coletivo Urbano (STTCU), o Consórcio Guaicurus — responsável pela operação dos ônibus — não repassou os valores dentro do prazo, o que levou a categoria a cruzar os braços no início da manhã.
A paralisação foi breve, mas simbólica: um alerta de que, se os salários não forem regularizados até segunda-feira (27), uma greve geral poderá ser deflagrada.
A versão das empresas: culpa do governo — e da prefeitura?
O Consórcio Guaicurus afirma que o atraso no pagamento aos funcionários é consequência de um repasse não realizado pelo Governo do Estado referente às gratuidade dos passes estudantis, que somaria R$ 9,5 milhões.
Mas há um detalhe novo que complica o enredo:
Fontes próximas às negociações indicam que o repasse estadual à Prefeitura de Campo Grande não foi efetuado porque o município estaria com uma certidão vencida — um documento de responsabilidade fiscal ou regularidade exigido para receber transferências.
Na prática, isso significa que o governo estadual não pôde efetuar o pagamento enquanto a prefeitura não resolver a pendência documental, travando toda a cadeia de repasses — inclusive aqueles destinados ao sistema de transporte coletivo.
Com o dinheiro bloqueado, o consórcio alega que ficou sem recursos para pagar os trabalhadores.
A prefeitura responde: “pressão indevida”
A Prefeitura de Campo Grande, por sua vez, nega que haja irregularidades formais e classifica a paralisação como uma manobra política do Consórcio Guaicurus para pressionar por um reajuste da tarifa técnica, que a empresa quer elevar de R$ 6,17 para R$ 7,79.
Segundo o município, o consórcio é o responsável direto pelo pagamento dos funcionários e não pode transferir a culpa por problemas de gestão interna.
Nos bastidores, integrantes da administração municipal afirmam que a situação está sendo usada como “jogo de empurra” para desgastar a imagem da prefeitura e forçar um acordo tarifário mais vantajoso para a concessionária.
O cidadão no meio do impasse
Enquanto governo, prefeitura, sindicato e empresa trocam acusações, quem paga o preço é o cidadão comum.
Mais de 150 mil pessoas foram afetadas apenas nas primeiras horas da paralisação. Passageiros relataram atrasos de até duas horas para chegar ao trabalho e corridas de aplicativo que custaram até R$ 80.
Mesmo após o retorno gradual dos ônibus, a manhã seguiu caótica, com linhas sobrecarregadas e atrasos em cascata.









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