Pesquisas apontam queda de 63% nos casos de dengue após soltura de mosquitos com Wolbachia em Campo Grande
Um estudo aceito para a edição de fevereiro de 2026 da The Lancet Regional Health – Americas revelou resultados expressivos da estratégia de controle da dengue adotada em Campo Grande (MS): a liberação em massa de mosquitos Aedes aegypti com a bactéria Wolbachia. A análise mostra redução de 63,2% na incidência da doença em 2024 nas áreas onde a bactéria atingiu estabilidade na população de mosquitos.
Estratégia inovadora e sustentada
A técnica consiste em introduzir a Wolbachia — bactéria presente naturalmente em cerca de 60% dos insetos — no Aedes aegypti. Quando infectado, o mosquito perde parte da capacidade de transmitir vírus como dengue, zika e chikungunya.
Em Campo Grande, mais de 100 milhões de mosquitos foram liberados gradualmente entre 2020 e 2023, abrangendo seis grandes zonas urbanas. Em 2024, a cidade registrou 86,4% de prevalência média da Wolbachia, e 89% das áreas monitoradas ultrapassaram o limiar de 60% — indicador considerado essencial para manutenção autônoma da técnica.
O monitoramento incluiu 1.677 ovitrampas distribuídas pela capital, permitindo acompanhar mês a mês a expansão da bactéria nos mosquitos.
Impacto direto na redução de casos
A análise histórica (2008–2024) evidencia que a cidade deixou de registrar surtos de grande magnitude após a intervenção. Enquanto no período pré-Wolbachia os casos anuais frequentemente ultrapassavam 4.700 notificações, após a adoção da técnica o cenário mudou:
- 2021: 410 casos
- 2022: 8.045 casos
- 2023: 11.406 casos
- 2024: 605 casos até setembro
Os pesquisadores destacam uma relação proporcional clara: quanto maior a prevalência da Wolbachia, menor a incidência da doença.
Colaboração científica internacional
O estudo reúne esforços de instituições brasileiras e internacionais, entre elas Fiocruz MS e Fiocruz Minas, Yale, Stanford, Johns Hopkins, USP, Monash University (Austrália), o World Mosquito Program, além das Secretarias de Saúde de Campo Grande e do Estado.
A iniciativa foi financiada e coordenada pelo Ministério da Saúde, marcando a primeira avaliação científica programática dessa escala no Brasil.
Solução sustentável e sem uso de químicos
A estratégia não utiliza produtos químicos e integra-se às ações regulares de vigilância em saúde, somando-se à eliminação de criadouros e à vacinação. Segundo os autores, o método apresenta viabilidade técnica, forte adesão comunitária e impacto epidemiológico consistente, elementos que podem embasar sua expansão para outros municípios brasileiros.
Possível modelo para o país
Em meio ao cenário nacional de transmissões elevadas, os resultados obtidos em Campo Grande reforçam a importância de políticas públicas baseadas em evidências. A colaboração entre pesquisa, gestão pública e comunidade surge como pilar para o avanço de estratégias sustentáveis de combate às arboviroses.
Fonte: Thayssa Maluff – Fiocruz Mato Grosso do Sul









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