Uma substância pesquisada há quase 30 anos no Brasil começa a dar passos decisivos rumo à medicina clínica e reacende a esperança de milhares de pessoas que vivem com lesões na medula espinhal. Trata-se da polilaminina, molécula desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e que, neste ano, recebeu autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para iniciar a fase 1 de testes clínicos em humanos.
A autorização representa um marco histórico para a ciência brasileira. A fase 1 é a primeira etapa formal exigida antes que um medicamento possa ser aprovado para uso comercial e tem como objetivo avaliar a segurança da substância em pacientes. Ainda serão necessárias as fases 2 e 3, voltadas à comprovação de eficácia e segurança ampliada — um processo que pode levar anos.
Mesmo assim, os resultados experimentais já obtidos colocaram a polilaminina no centro do debate científico e social.
Resultados inéditos em estudos preliminares
Antes da autorização da Anvisa, a equipe liderada pela professora e pesquisadora Tatiana Sampaio, da UFRJ, conduziu estudos experimentais e um teste-piloto com oito pacientes com lesões medulares completas — os casos mais graves, nos quais a recuperação espontânea é rara.
Nesse grupo, seis pacientes recuperaram algum grau de movimento, representando uma taxa de recuperação de 75%, muito superior aos cerca de 15% observados em dados históricos da literatura médica para lesões semelhantes. Os dados, no entanto, foram divulgados em formato de pré-print, ou seja, ainda sem revisão por pares.
“Não posso afirmar que estamos diante de algo espetacular, mas isso é possível”, afirma Sampaio, destacando a necessidade de cautela científica.
Como a polilaminina atua
A polilaminina é derivada da laminina, proteína naturalmente produzida pelo corpo humano, especialmente durante o desenvolvimento embrionário. No sistema nervoso, a laminina tem papel fundamental no crescimento dos axônios — estruturas neuronais rompidas em lesões medulares.
Em laboratório, a polilaminina funciona como um “andaime biológico”, criando uma estrutura que favorece a regeneração desses axônios, permitindo que eles voltem a crescer e se reconectar.
A substância é produzida em parceria com a farmacêutica Cristália, a partir da extração e purificação da laminina presente na placenta, doada voluntariamente por gestantes.
Casos que chamaram atenção
Mesmo sem autorização para uso comercial, alguns pacientes conseguiram acesso à polilaminina por meio de decisões judiciais. Um dos casos mais recentes é o da nutricionista Flávia Bueno, de 35 anos, que ficou tetraplégica após um acidente ao mergulhar no mar. Após a aplicação da substância, familiares relataram a recuperação do movimento do braço direito.
Para a pesquisadora, o uso fora de protocolos científicos é eticamente problemático, mas o fator humano pesa. “Quando alguém não tem nenhuma perspectiva de melhora, é impossível ignorar esse pedido”, afirma.
O que vem pela frente
A fase 1 dos testes clínicos será realizada com cinco pacientes com lesão medular completa na região torácica, com aplicação da substância em até 72 horas após o trauma. O estudo será conduzido em parceria com hospitais de referência em São Paulo e contará com apoio da AACD na reabilitação.
Se os resultados forem positivos, a expectativa é avançar para a fase 2 em 2026. Caso todas as etapas sejam concluídas com sucesso, o pedido de registro do medicamento pode ser submetido à Anvisa a partir de 2028.
Enquanto isso, a polilaminina segue como um símbolo da ciência nacional: promissora, inovadora e ainda cercada de cautela.









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