Dois dias antes da abertura oficial da semana de moda de Nova York, o estilista Marc Jacobs antecipou o calendário e apresentou sua coleção verão 2026 no tradicional Park Avenue Armory. Ao som de “Jóga”, de Björk, o desfile intitulado “Memory Loss” propôs uma reflexão estética sobre memória, identidade e o momento atual da indústria.
A coleção percorre referências que ajudaram a consolidar o DNA criativo de Jacobs e da própria moda contemporânea. Entre as inspirações declaradas estão a alta-costura de 1965 de Yves Saint Laurent, a primavera 1996 da Prada e o outono de 1995 de Helmut Lang. Também surgem releituras de sua fase grunge nos anos 1990 — período que o consagrou como um dos nomes mais influentes da moda norte-americana.

Diferente das proporções cartunescas e volumes amplificados vistos em temporadas anteriores, Jacobs agora aposta em uma silhueta mais contida e linear. As peças ainda se afastam do corpo, como se flutuassem, mas com rigidez calculada. Suéteres de ombros levemente marcados e saias com estruturas geométricas no cós chamaram atenção, permitindo que as modelos escondessem as mãos dentro da própria roupa.
Embora haja uma redução formal, a proposta não dialoga com o chamado “luxo silencioso”. O estilista articula memória e autorreferência sem cair no saudosismo. O resultado é uma coleção tecnicamente apurada, sensível ao espírito do tempo e consciente de que moda e contexto caminham juntos.
Em meio ao esgotamento estético das redes sociais, tensões geopolíticas, tarifas comerciais e à crise no varejo de luxo — que atinge gigantes como a Saks Fifth Avenue — Jacobs oferece uma alternativa mais sóbria e estruturada. Um movimento que busca preservar identidade criativa enquanto mantém a engrenagem do negócio em funcionamento diante das incertezas globais.









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