Todos os anos, quando o Carnaval se aproxima, algo parece se transformar no ar. Não é apenas a música alta, o brilho das fantasias ou a energia dos blocos. É como se, por alguns dias, a própria cidade autorizasse versões diferentes de nós mesmos. Mas por que, nesse período, tantas pessoas se sentem mais permissivas em suas escolhas?
A psicanalista Bianca Barki explica que a resposta passa pela dinâmica do coletivo. Em “Psicologia das Massas e Análise do Eu”, Sigmund Freud descreve como o indivíduo, ao se inserir em um grupo, experimenta alterações na forma de perceber limites e responsabilidades. Sozinhos, sustentamos uma imagem de quem queremos ser, com regras internas mais rígidas. Em meio à multidão, identificados com amigos ou com a energia do bloco, esses limites podem se flexibilizar. A sensação é de pertencimento e amparo: se todos estão fazendo, por que eu não faria?
Isso não significa que o Carnaval seja um colapso moral. Pelo contrário, há um aspecto saudável nessa experiência. Durante o ano, somos pressionados a produzir, manter coerência e dar conta de múltiplas exigências. A folia abre uma brecha simbólica. Permite experimentar, testar desejos, brincar com a própria imagem. Para muitos, isso é libertador.
Ao mesmo tempo, a liberdade pode trazer consequências. Decisões tomadas no calor da festa podem parecer autênticas no momento e confusas depois. Quando a rotina retorna, valores e prioridades reaparecem. Não se trata de hipocrisia, mas de ambivalência humana. Queremos segurança e novidade, estabilidade e intensidade.
O Carnaval não cria conflitos internos, apenas os amplifica. A energia coletiva funciona como um alto-falante dos desejos já existentes. Nem tudo que emerge ali representa um “eu verdadeiro”, mas revela partes que também fazem parte de quem somos.
Talvez a pergunta mais importante não seja o que acontece na avenida, mas o que fazemos com isso depois. Em vez de julgar, vale refletir: o que eu estava buscando naquele momento? O que essa experiência revela sobre mim?
O Carnaval, afinal, expõe nossa vontade de pertencer e, ao mesmo tempo, de transgredir. E é justamente nessa tensão tão humana que reside a força da festa.









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