Mesmo após a Receita Federal do Brasil sinalizar que não haverá aplicação de multas na fase inicial da reforma tributária, o setor do agronegócio segue em alerta diante das mudanças operacionais impostas pelo novo modelo fiscal.
A partir de 2026, os novos tributos CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) e IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) — que compõem o chamado IVA — passarão a constar nas notas fiscais, ainda sem cobrança efetiva. A etapa é considerada um período de testes, com foco na validação de sistemas, integração de dados e adaptação às novas obrigações acessórias.
No entanto, no agronegócio, o impacto já começa a ser percebido na prática, especialmente na necessidade de adequação tecnológica e na reorganização do fluxo de caixa.
A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil alerta que produtores e contadores precisam agir imediatamente para atualizar sistemas de emissão de notas fiscais, incluindo novos campos exigidos pelo modelo. A transição também envolve mudanças estruturais, como o CNPJ alfanumérico e o aumento no cruzamento de dados entre os fiscos.
Pressão no fluxo de caixa
Embora não haja aumento imediato da carga tributária, especialistas apontam que o impacto financeiro tende a se concentrar no momento da venda da produção.
Segundo a especialista tributária Munique Lopes, o modelo atual funciona como um teste técnico, com alíquota simbólica de 1% apenas para fins de validação. Ainda assim, o efeito sobre o caixa já começa a ser sentido.
O diferimento — que adia a tributação na compra de insumos — alivia o caixa no curto prazo, mas transfere a pressão para a comercialização. Na prática, o produtor deixa de pagar tributos na aquisição de fertilizantes, mas passa a concentrar o impacto na venda, justamente quando precisa recompor capital.
Split payment muda lógica financeira
Outro ponto crítico é a implementação do chamado split payment, sistema que separa automaticamente o imposto no momento da transação.
De acordo com o advogado Ralph Melles Sticca, o modelo altera a lógica histórica do setor, onde o produtor recebia o valor integral da venda e apurava tributos posteriormente.
Com o novo sistema, parte da receita pode ser retida automaticamente, reduzindo o capital disponível imediato — fator sensível em um setor que depende fortemente de capital de giro.
Riscos operacionais e burocracia
Especialistas também alertam para o aumento da complexidade operacional. A integração entre sistemas fiscais e bancários exige investimentos em tecnologia e maior rigor no cumprimento das obrigações acessórias.
O advogado Luciano Faria destaca que o principal risco em 2026 não está na tributação, mas na conformidade. Falhas no cumprimento das novas exigências podem gerar autuações e penalidades.
Fertilizantes e câmbio agravam cenário
O impacto tende a ser mais intenso em cadeias como a de fertilizantes, onde os custos são antecipados — muitas vezes atrelados ao dólar — e a receita só ocorre meses depois.
Além disso, a necessidade de conversão cambial no momento das operações pode dificultar estratégias de proteção financeira (hedge), aumentando a exposição dos produtores.
Tendência de adaptação
Diante do cenário, especialistas apontam para o fortalecimento de operações de barter (troca) e o surgimento de novos instrumentos financeiros para mitigar os efeitos da tributação instantânea.
Na prática, a reforma tributária não representa apenas uma mudança de alíquotas, mas uma transformação estrutural no funcionamento do agronegócio, exigindo planejamento financeiro mais sofisticado, integração tecnológica e adaptação rápida às novas regras.









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