Enquanto o debate público segue preso à polarização entre Lula e Bolsonaro, um movimento silencioso avança nos bastidores da política brasileira. Ele não acontece nas redes sociais, nem nos palanques inflamados. O movimento ocorre dentro de partidos, alianças e cálculos frios de poder — e tem um nome central: Gilberto Kassab.
Ex-prefeito de São Paulo, atual secretário no governo paulista e presidente nacional do PSD, Kassab consolidou ao longo das últimas décadas uma reputação rara: a de político que não aposta em nomes, mas em estruturas. Sua lógica não é ideológica, é funcional. E a eleição presidencial de 2026 tornou-se o seu projeto mais ambicioso.
Três presidenciáveis, um único objetivo
O PSD abriga hoje três governadores colocados como presidenciáveis: Ronaldo Caiado, Ratinho Junior e Eduardo Leite. À primeira vista, lançar três nomes do mesmo partido à Presidência parece incoerente. Na prática, trata-se de uma estratégia de ocupação de espaço político e ampliação de poder de barganha.
Nenhum desses nomes precisa, de fato, vencer. O objetivo é outro: fortalecer o PSD como a maior plataforma nacional fora do eixo Lula–Bolsonaro.
O alvo real: Tarcísio de Freitas
A movimentação ganha sentido quando se observa a posição de Tarcisio de Freitas. Atual governador de São Paulo e ainda vinculado ao bolsonarismo, Tarcísio enfrenta um dilema estratégico: permanecer no PL e disputar espaço com Flavio Bolsonaro, ou encontrar uma saída que lhe permita disputar a Presidência sem implodir a direita.
O PSD oferece essa rota. Com governadores em estados-chave, estrutura partidária robusta, recursos e palanques consolidados, Kassab pode entregar a Tarcísio uma candidatura “limpa”, sem confronto direto com a família Bolsonaro — uma dissidência sem ruptura explícita.
A arquitetura dos palanques
O partido já controla ou influencia governos em alguns dos maiores colégios eleitorais do país, além de lideranças municipais estratégicas, como Eduardo Paes. A lógica é simples: criar uma base nacional capaz de sustentar qualquer candidatura viável que emerja no momento certo.
Caiado, Ratinho Jr. e Eduardo Leite cumprem papel tático. Podem disputar, desistir ou migrar para o Senado, liberando o caminho para um nome único, caso Kassab considere o cenário maduro.
Plano B: O pragmatismo absoluto
Caso Tarcísio não aceite romper com o bolsonarismo, Kassab mantém uma alternativa ainda mais ousada: aproximar-se diretamente de Luiz Inacio Lula da Silva. A história recente mostra que barreiras ideológicas não são definitivas. Em 2022, Geraldo Alckmin tornou-se vice de Lula após anos de antagonismo.
Para o Planalto, Kassab entregaria governabilidade, trânsito com o Centrão, relação com o mercado e controle territorial — ativos que nenhum outro aliado oferece com a mesma densidade.
Plano C: O fiel da balança
Há ainda a opção mais provável: lançar Ratinho Jr. no primeiro turno, sabendo que a vitória é improvável, mas apostando no segundo turno como espaço máximo de negociação. Nesse cenário, o PSD define o rumo da eleição — e cobra por isso.
Conclusão
Independentemente do vencedor em 2026, Kassab já venceu no tabuleiro. Seu projeto não é ser presidente, mas controlar as condições de governabilidade de quem ocupar o Planalto. Enquanto o país discute narrativas, ele constrói estruturas.
A traição política de 2026, se acontecer, não será ruidosa. Será técnica. E já está em curso.









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