Saberes ancestrais e ciência moderna: onde a tradição encontra a neurociência no cuidado com o trauma
Práticas populares como as benzedeiras ganham novo olhar à luz de estudos sobre regulação do sistema nervoso, mas especialistas alertam para limites e riscos de generalização
Em diferentes regiões do Brasil, especialmente no Nordeste, práticas tradicionais de cuidado atravessam gerações. Entre elas, o trabalho das benzedeiras — mulheres que utilizam orações, toques e rituais para tratar males físicos e emocionais — tem ganhado novo destaque em debates contemporâneos sobre saúde mental.
A discussão ganhou força com a popularização de conceitos ligados ao trauma psicológico e sua manifestação no corpo. O terapeuta Peter A. Levine, referência internacional na abordagem somática, descreve o trauma como uma resposta de sobrevivência incompleta, que permanece ativa no sistema nervoso. A teoria propõe que experiências intensas podem gerar estados persistentes de alerta ou congelamento fisiológico.
Esse entendimento dialoga, em certa medida, com expressões populares como “susto preso no corpo”, frequentemente mencionadas em contextos tradicionais. Para especialistas, no entanto, a aproximação entre ciência e saberes ancestrais deve ser feita com cautela.
Segundo estudos na área de Neurociência e Psicologia, experiências traumáticas podem alterar padrões de funcionamento do sistema nervoso autônomo, afetando respostas de estresse, memória e regulação emocional. Técnicas terapêuticas contemporâneas, como terapias corporais e abordagens baseadas em mindfulness, também exploram a relação entre corpo e mente.
No entanto, pesquisadores ressaltam que práticas tradicionais não seguem critérios científicos de validação, como testes clínicos controlados e replicabilidade. Embora possam oferecer acolhimento emocional, suporte comunitário e efeito placebo positivo, sua eficácia não é universalmente comprovada.
Para a psicologia clínica, o desafio está em reconhecer o valor cultural dessas práticas sem substituir tratamentos baseados em evidência, especialmente em casos de transtornos mais graves, como Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT).
Ainda assim, o diálogo entre tradição e ciência tem se ampliado. Em um cenário onde saúde mental ganha centralidade, compreender diferentes formas de cuidado pode contribuir para abordagens mais integrativas — desde que respeitados os limites entre experiência cultural e validação científica.
Referências:
- Levine, P. A. (1997). Waking the Tiger: Healing Trauma
- American Psychological Association (APA) — Trauma and Stress-related Disorders
- National Institute of Mental Health (NIMH) — PTSD Overview
- Van der Kolk, B. (2014). The Body Keeps the Score
- Artigos recentes em neurociência do trauma (Nature Reviews Neuroscience; Frontiers in Psychology)









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