Energia limpa desperdiçada expõe falhas estruturais e pressiona regulação no Brasil
O sistema elétrico brasileiro atravessa uma transformação acelerada — e, em muitos aspectos, desordenada. A expansão das fontes renováveis, especialmente eólica e solar, avançou em ritmo superior ao crescimento da demanda e da infraestrutura de transmissão, gerando um desequilíbrio estrutural que já impacta diretamente a eficiência do setor.
Nos últimos anos, a capacidade instalada de fontes não despacháveis praticamente triplicou, passando de cerca de 30 GW em 2021 para aproximadamente 90 GW em 2025. O avanço foi impulsionado por incentivos regulatórios e pela queda nos custos tecnológicos, mas ocorreu sem coordenação com o planejamento sistêmico.
O efeito mais evidente desse descompasso é o aumento dos cortes de geração, conhecidos como “curtailment”. Apenas no terceiro trimestre de 2025, cerca de um terço da energia solar potencial e mais de 20% da geração eólica foram desperdiçados. Em momentos críticos, houve redução quase total dessas fontes, mesmo com limitação da geração hidrelétrica.
Diante desse cenário, os sistemas de armazenamento de energia (SAE) surgem como solução estratégica. Essas tecnologias permitem armazenar o excedente gerado em períodos de baixa demanda e utilizá-lo nos horários de pico, reduzindo desperdícios, aumentando a estabilidade da rede e diminuindo a dependência de usinas térmicas.
Além disso, os SAE contribuem com serviços essenciais ao sistema elétrico, como controle de frequência e regulação de tensão. Em diversos países, o armazenamento já é parte consolidada da matriz energética. No Brasil, no entanto, o avanço ainda esbarra em entraves regulatórios.
O principal ponto de impasse está na chamada “dupla tarifação” pelo uso da rede elétrica. Parte do setor defende que a cobrança tanto no carregamento quanto na injeção de energia inviabiliza economicamente os projetos, já que o consumo não é final, mas parte do processo de armazenamento.
Por outro lado, há a visão de que o uso da rede ocorre em ambos os sentidos e deve ser remunerado, garantindo equilíbrio econômico e evitando subsídios cruzados.
A indefinição regulatória ocorre em um momento estratégico, com o governo sinalizando leilões de capacidade para contratação de armazenamento nos próximos anos. Sem regras claras, investimentos ficam travados, energia limpa segue sendo desperdiçada e o país perde a oportunidade de estruturar um novo mercado.
A regulação dos sistemas de armazenamento deixou de ser apenas uma pauta técnica e passou a ser central para o futuro do setor elétrico brasileiro. Resolver esse impasse é fundamental para garantir eficiência, segurança energética e avanço sustentável na transição energética.









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