O envelhecimento está passando por uma transformação significativa na forma como é percebido e representado — especialmente nas redes sociais. O movimento, que vem sendo chamado de New Older Living Trend (NOLT), reflete a crescente presença de pessoas com mais de 60 anos em ambientes digitais, exibindo estilos de vida ativos, independentes e conectados.
Dados recentes do IBGE mostram que o acesso à internet entre brasileiros com 60 anos ou mais cresceu de forma expressiva na última década. Em 2016, apenas 24,7% desse público utilizava a internet. Em 2023, esse número chegou a 66%, acompanhado pelo aumento no uso de smartphones, que atingiu mais de 78% em 2024. Esse avanço tecnológico ampliou a participação dessa faixa etária nas redes sociais e abriu espaço para novos influenciadores digitais, conhecidos como “granfluencers”.
Esse fenômeno contribui para desconstruir estereótipos históricos associados à velhice, tradicionalmente ligada à fragilidade, dependência e invisibilidade social. Hoje, é cada vez mais comum ver pessoas idosas produzindo conteúdo sobre moda, bem-estar, viagens, empreendedorismo e até vida afetiva, redefinindo o que significa envelhecer.
No entanto, especialistas alertam para um possível efeito colateral dessa nova narrativa. Embora inspiradora, a representação do envelhecimento nas redes pode criar uma visão idealizada da realidade, desconsiderando desafios enfrentados por grande parte da população idosa, como limitações físicas, doenças crônicas, dificuldades financeiras e acesso desigual à tecnologia.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o envelhecimento saudável não se resume à ausência de doenças ou à manutenção de um estilo de vida ativo, mas está diretamente relacionado à capacidade funcional e às condições sociais e econômicas em que a pessoa está inserida.
Outro ponto importante é o avanço do envelhecimento populacional. Projeções da ONU indicam que, até 2050, o número de pessoas com 60 anos ou mais deve ultrapassar 2 bilhões em todo o mundo. No Brasil, esse grupo já representa mais de 15% da população, reforçando a necessidade de políticas públicas e discussões mais amplas sobre qualidade de vida na terceira idade.
Diante desse cenário, o chamado NOLT surge como um reflexo de mudança cultural, mas também como um convite à reflexão. Entre inspiração e realidade, o desafio é equilibrar a valorização da autonomia com a compreensão das desigualdades que ainda marcam o envelhecimento no país.
A nova imagem da velhice pode ser mais positiva e inclusiva — desde que não ignore as múltiplas realidades que coexistem por trás das telas.








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