Raio-X: possível rompimento da federação PP–União e os reflexos em Mato Grosso do Sul
Contexto nacional
A federação União Progressista, formada por PP e União Brasil, foi oficializada em abril de 2025 e rapidamente se tornou a maior força política do Congresso Nacional, com mais de cem deputados e expressiva presença no Senado.
O projeto, articulado por Ciro Nogueira (PP) e Antônio Rueda (União), nasceu com o objetivo de consolidar uma frente de centro-direita capaz de rivalizar com o PT.
No entanto, as divergências internas se intensificaram após o rompimento com o governo Lula, anunciado em setembro. Desde o fim de outubro, o embate entre Ciro Nogueira e Ronaldo Caiado (União) acentuou a crise, e há forte possibilidade de que a federação se desfaça antes mesmo da homologação pelo TSE, o que teria impactos diretos em Mato Grosso do Sul.
Impactos em Mato Grosso do Sul
Governo estadual e base política
Em Mato Grosso do Sul, o principal foco das atenções é o entorno do governador Eduardo Riedel (PP), que deixou o PSDB e se filiou ao PP em agosto de 2025. Riedel lidera as pesquisas de intenção de voto e trabalha para consolidar uma ampla base de apoio, reunindo PP, PSD, Republicanos e parte do MDB.
Com a federação ativa, o União Brasil atuava como aliado natural do governo, garantindo estrutura partidária e tempo de TV.
Caso o bloco se desfaça, o PP perde a sustentação automática e precisará reconstruir alianças em cada município. Essa recomposição pode redefinir tanto a articulação na Assembleia Legislativa quanto as coligações majoritárias.
Nesse cenário, a direita bolsonarista volta a se movimentar. O deputado federal Marcos Pollon (PL) já se declarou pré-candidato ao governo do estado, apresentando-se como “a voz da direita autêntica” e com apoio de segmentos conservadores e das forças de segurança.
Pollon pretende consolidar um palanque independente, alinhado ao ex-presidente Jair Bolsonaro, podendo disputar parte do eleitorado hoje simpático a Riedel e ao PL.
O PT, por sua vez, busca unificar o campo progressista e articula a pré-candidatura de Fábio Trad ao governo, com Simone Tebet (MDB) como possível nome ao Senado.
Senado: disputa acirrada por duas vagas
Em 2026, Mato Grosso do Sul elegerá duas cadeiras no Senado, e a corrida promete ser uma das mais competitivas do país.
Pesquisas recentes apontam Reinaldo Azambuja (PL) na liderança, seguido por Simone Tebet (MDB) e Nelsinho Trad (PSD).
Nos levantamentos mais recentes, o Capitão Contar (PRTB) — ex-deputado estadual e candidato ao governo em 2022 — ganhou destaque e aparece entre os nomes mais lembrados de forma espontânea.
Com forte apelo junto ao eleitorado conservador e presença ativa nas redes, Contar se consolida como figura central da direita sul-mato-grossense, podendo influenciar o desenho das alianças.
No campo progressista, o PT trabalha com duas alternativas: Vander Loubet, deputado federal experiente e de forte articulação regional, e Simone Tebet (MDB), que mantém interlocução próxima com Lula e pode representar uma composição mais ampla de centro-esquerda.
O partido avalia qual dos dois nomes teria maior potencial de competitividade em uma chapa encabeçada por Fábio Trad ao governo.
Se a federação permanecer unida, o PP deverá reivindicar uma das vagas ao Senado, possivelmente com o deputado estadual Gerson Claro, que vem se destacado a cada pesquisa realizada.
Mas, se a união partidária for desfeita, abre-se espaço para novos arranjos — como uma chapa conjunta PL–União, uma candidatura própria da ex-deputada Rose Modesto ao Senado, ou mesmo um movimento independente de Capitão Contar, que vem sendo sondado por diferentes legendas.
Palanques municipais e rearranjos regionais
- Campo Grande – A prefeita Adriane Lopes (PP) ganhou força com a federação, mas uma ruptura reduziria a coesão da base e daria autonomia ao União para negociar com PL ou MDB.
- Dourados e Três Lagoas – Governadas pelo PSDB, devem seguir alinhadas a Riedel, mas a separação entre PP e União ampliaria a margem de negociação local.
- Corumbá – Com o PSB no comando, o palanque é disputado por PP, União e PT; Simone Tebet pode ser ponte entre MDB e PSB.
- Naviraí – Reduto do PL, o município tende a apoiar Azambuja ou Pollon, fortalecendo o eixo bolsonarista.
- Ponta Porã – Governada pelo PSDB, deve arbitrar entre PP, União e PL na montagem das coligações regionais.
Leituras políticas e próximos passos
Analistas avaliam que a eventual dissolução da federação PP–União traria três efeitos imediatos em Mato Grosso do Sul:
- Maior incerteza nas alianças eleitorais para 2026, com reposicionamento de PP, União, PL e PSDB.
- Fragmentação da base governista, especialmente em Campo Grande e nas maiores prefeituras.
- Espaço ampliado para novas lideranças de direita, como Marcos Pollon e Capitão Contar, que disputam o mesmo público bolsonarista, mas em frentes distintas — governo e Senado, respectivamente.
Nos bastidores, aliados de Riedel garantem que “o projeto estadual está consolidado”, enquanto dirigentes da União Brasil admitem “ajustes necessários” e não descartam candidaturas próprias. No campo conservador, o PL trabalha para se firmar como eixo principal da direita, apostando em Pollon e Azambuja como nomes de destaque.
Conclusão
Com a possibilidade real de rompimento da federação PP–União Brasil, Mato Grosso do Sul entra em fase de reconfiguração política.
De um lado, o governador Eduardo Riedel (PP) busca manter a hegemonia e segurar a base governista; de outro, Marcos Pollon (PL) e Capitão Contar (PRTB) consolidam-se como principais representantes da direita bolsonarista, prontos para disputar o espaço do eleitor conservador.
Mas o cenário não se limita à direita.
O PT tenta reconstruir sua presença em MS, apostando no nome de Fábio Trad — figura respeitada no campo progressista, com perfil técnico e moderado. Trad surge como alternativa de centro-esquerda, buscando unificar petistas, setores do MDB ligados a Simone Tebet e eleitores insatisfeitos com a polarização.
Caso consiga firmar alianças com o PSB e o PDT, o PT pode voltar ao jogo majoritário e garantir protagonismo em um eventual segundo turno.
Enquanto o TSE e as direções nacionais não definem o destino da federação, o tabuleiro político de Mato Grosso do Sul permanece aberto e imprevisível — dividido entre a força da máquina governista, a ascensão de novas lideranças de direita e a tentativa de reorganização da esquerda em torno de Fábio Trad.









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